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Balanço e despedida

ANDRÉ FÁVERO
Professor e mestre em Filosofia pela USP

 
Há muito tempo já que adoto o final de cada ano como época para um balanço de vida, uma reflexão sobre minhas ideias, meus valores e minhas práticas, e para significativas alterações ou pequenos ajustes em meus sonhos e projetos. Tempo não exclusivo, mas privilegiado, de ampliar o autoconhecimento, de me haver com meus sentimentos e de reorganizar meus desejos. E nesse processo, pela prudência diante de novos compromissos e por respeito ao leitor, venho aqui, desta vez, permitam-me, apenas para me despedir daqueles que me acompanharam por vinte meses, em dezoito artigos, nesta coluna  mensal. 
Nesse período, procurei abordar questões relativas aos desafios contemporâneos da educação, alguns temas polêmicos do convulsionado cenário político brasileiro e também assuntos de comportamento, preconceitos, crenças e valores. Mais difíceis, as abordagens dos acontecimentos da vida política tiveram data de publicação que requeria cuidado redobrado para conseguir acompanhar as reviravoltas do jogo do poder, ultimamente em aceleração constante e não raro sem muita chance de previsão a curto prazo – é que em geral a entrega dos artigos se dá com uma semana de antecedência da data de divulgação. 
No tocante à política, não evitei aqui assumir posicionamentos, tendo preferido sempre explicitá-los, no intuito de apresentar ao público uma possibilidade de interpretações dos fatos políticos que fossem alternativas àquela predominante nas mídias impressas e televisivas das grandes empresas de comunicação do país. De igual modo, optei por certo tom provocativo  ante as narrativas partidárias reproduzidas com força no interior do Estado de SP, rincão há mais de duas décadas de um modo de gestão a meu ver elitista e equivocado, de um mesmo partido, admiravelmente blindado, promovido e assegurado pelas mídias paulistas. 
Quando tratei de educação, tema que me é dos mais caros por razões de profissão e de cidadania, orientei-me pela intenção de não simplificar a leitura das responsabilidades na formação escolar, reconhecendo-as tanto nas figuras do Estado e dos professores, quanto dos pais e dos próprios alunos. Modelo fracassado e setor sucateado em SP, o Ensino ainda sobrevive com certa dignidade devido sobretudo ao espírito heroico de professoras e professores resilientes e comprometidos, e ainda graças a alguns alunos sobreviventes à aridez desse sistema massificador de sua subjetividade e repressor das possibilidades de suas múltiplas inteligências, de sua criatividade e expressividade. Parte desses alunos, deram-nos alento com sua demonstração de força e de mobilização política, ocupando suas escolas e qualificando o debate sobre a Educação que precisamos. 
Como professor e cidadão militante, jamais abri mão de fazer comparecer neste espaço uma crítica contundente ao obscurantismo, ao analfabetismo político e  ao comportamento de rebanho nas questões de ordem moral, tentando sempre questionar seus critérios e propósitos, além de desmascarar alguns de seus pressupostos. Vício de formação em Filosofia, espero ter conseguido a contento sublimá-lo como ferramenta compartilhada de luta contra os preconceitos, a ignorância e a alienação. Afinal, os desafios deste nosso país, escandalosamente desigual, são tão complexos e colossais que, para quem é engajado na transformação das injustiças historicamente aqui construídas e disfarçadas, cada lugar é um campo de luta e uma oportunidade a ser aproveitada. Confesso, como devo ter deixado transparecer ao longo desses três semestres, que esse sempre foi meu compromisso aqui: contribuir para o despertar de uma atitude filosófica e questionadora, de um senso crítico que pudesse se concretizar em ações transformadoras de nossas relações conosco mesmos, com a natureza, com o outro e com a sociedade. 
Agora, antigos e novos projetos  se impõem em minha agenda, mas permanecerão o carinho pela cidade de minha infância e adolescência, o reconhecimento pelo espaço generosamente oferecido  a mim  pelo jornal A Voz do Povo  com liberdade irrestrita de tema e de opinião, e a gratidão pelos leitores que me acompanharam, seja na concordância ou na discordância.
A quem possa interessar uma troca mais direta, meu  e-mail é faveroal@gmail.com
Que em 2017 sejamos todos menos golpeados! E que o estado de exceção que vai se configurando no Brasil forje a resistência crítica e politicamente combativa daqueles saberão ensinar, no futuro, que 2016, no Brasil, foi um ano que atualizou 1964, senão como tragédia, ao menos como farsa.

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