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Temeridades

Temer netANDRÉ FÁVERO
Professor e mestre em Filosofia pela USP

 

 
Em sintonia com o filósofo Aristóteles, certa vez Miguel de Cervantes escreveu que “as façanhas dos temerários devem atribuir-se mais à sorte do que à coragem”. É que coragem só é virtude quando dosada de prudência e de uma racionalidade que orienta sempre para a justiça em cada ação. Já a temeridade, oposto da covardia, é vício por excesso, ou seja, uma fragilidade, uma espécie de coragem desvirtuada, pois abusiva, quando a razão falha em medir adequadamente com que força uma circunstância deve ser enfrentada. O golpismo no Brasil hoje é muita coisa, inclusive isso.
É com muita temeridade que se pretende impedir definitivamente o governo de uma presidenta eleita com 54.501.118 votos sob a acusação de ela ter cometido crime de responsabilidade por meio das tais “pedaladas fiscais” e seis decretos de suplementação (ou de crédito complementar) assinados em 2015. Seu vice, que assume em seu lugar, também decretou sete suplementações do mesmo tipo quando esteve no exercício do cargo, totalizando R$10,8 bilhões. Só em 2001, FHC pedalou 101 vezes. O senador Antônio Anastasia (PSDB-MG), relator da comissão que aprovou a instauração do processo de impeachment no Senado, quando governador em Minas teria movimentado R$63 bilhões também com pedaladas, 972 vezes. Brasil afora, 16 governadores também já pedalaram à vontade, bem como prefeitos.
Mas apenas Dilma não pode, mesmo que as suas sejam, na verdade, meras manobras contá-beis que, provisoriamente, tiraram de um bolso do governo para preencher o outro, de que se tirou para manter políticas públicas essenciais para garantir direitos mínimos da parcela mais pobre. Mas quem se importa com doze anos de um governo que até hoje foi incontestavelmente o que mais fez pelos menos favorecidos? Apenas esse governo não pode dispor permissivamente das finanças sob sua responsabilidade como os outros todos podem. Uma irregularidade leve, mas fácil e rapidamente reparada, tornou-se a oportunidade para, cinicamente e com dois pesos e duas medidas, implicarem a presidenta numa gravidade que até agora nunca encontraram. É que a decisão já estava tomada antes de qualquer fato e, na ausência deste, toda uma orquestração político-partidária, midiática e jurídica se armou e se efetivou meticulosamente. Sem fatos, atêm-se a factoides. Como com Lula, sem fato, basta ao menos uma foto (sendo levado pela polícia em abusiva condução coercitiva). Afinal, parece mesmo que uma imagem na tela sob uma narrativa pseudo-comprometi-da com a ética é o que se precisa para insuflar a massa, sempre cansada das maracutaias de muitos dos políticos, mas igualmente manipulada para continuar preferindo Barrabás na hora de se fazer justiça.
A Câmara, que admitiu a abertura do processo de impeachment de Dilma, é composta  em mais de sua metade por deputados que já são réus ou estão sob investigações ou denúncias. Um deles, reconhecidamente machista, homofóbico e racista, gritou seu “sim” homenageando o militar covarde e torturador da então jovem Dilma Rousseff. Nessa mesma casa, o rela-tor do pedido de afastamento da presidenta foi Jovair Arantes (PTB-GO), interlocutor e atendente confesso do bicheiro Carlinhos Cachoeira e acusado pelo Ministério Público goiano de negociar cargos e favores no INSS. Depois de muito manobrar de modo rasteiro até esse derradeiro dia, a sessão foi presidida por Eduardo Cunha, agora afastado até de seu mandato, com um atraso do STF para lá de suspeito, já que parece não faltarem provas de seus tantos crimes: corrupção ativa, ocultação de patrimônio, sonegação fiscal, evasão de divisas, além de usar o cargo para atrapalhar investigações sobre si. Como se ainda fosse pouco, mais recentemente a Câmara aprovou um aumento de salário de 16,38% para o STF, acima da inflação acumulada no ano, elevando-o a R$39 mil, sem falar das gratificações, abonos e indenizações, privilégios de luxo que recebem, e do efeito-cascata no gasto com parte do funcionalismo público. Isso tu-do enquanto cobram que o governo corte na própria carne e enquanto outros incautos bradam contra 9% do reajuste da presidenta para o bolsa-família, abaixo da inflação acumulada, resultando na média de apenas 176 reais mensais às famílias beneficiárias.
No Senado, dentre os que decidem sobre o destino no cargo de uma presidenta de quem não se consegue encontrar uma prova incontroversa sequer de crime ou desonestidade, destaca-se a presença do senador Zezé Perrella (PTB-MG), cujo helicóptero foi flagrado em 2013 carregando 445 kg de pasta base de cocaína, impunemente. Também atuando sob a cúpula côncava do Congresso – símbolo, dizem, da ponderação e do peso da experiência dos parlamentares da casa –, seu presidente Renan Calheiros é célebre por escândalos de improbidade e a maioria dos parlamentares é investigada por crimes de corrupção. Essa hipocrisia toda de legisladores-juízes do processo de impeachment está longe de passar desapercebida pela imprensa internacional, até mesmo a reacionária, envergonhando o Brasil lá fora e manchando a história de nossa jovem democracia de modo indelével.
Ainda em Brasília, Michel Temer, o cínico vazador de carta e áudio que subestima a inteligência do povo, não se inquieta em transparecer querer deixar o Ministério da Ciência e Tecnologia ao comando de um pastor criacionista, isso tudo na tragédia anunciada de um governo tomado para suas mãos mediante traição e golpismo, ilegítimo para muitos e, conforme demonstrado em pesquisa, pré-aprovado por apenas 1% da população. Num governo Temer, o pastor Silas Malafaia já enseja pi-tacos no Ministério da Educação, contra o que ridiculamente chama de “ideologia de gênero” e o respeito à diversidade sexual. Não bastasse isso, Temer será o primeiro presidente ficha-suja antes mesmo da posse, já inelegível em eleições futuras devido a irregularidades de doação de campanha como pessoa física.
Em Alagoas, lei estadual medieval recentemente impôs tabus a professores sérios que forma-riam estudantes para a vida e os educariam para além dos meros conteúdos de vestibular: ensinar e refletir criticamente sobre religião, sexualidade e política agora pode lhes dar cadeia. Obscurantismo legalizado e retrocesso absurdo vão assim se institucionalizando no país.
E a emissora de TV mais golpista do Brasil mantém sua tradição de forma despudorada. Sua cobertura explorou à exaustão a polêmica posse jamais comprovada de um sítio e de um triplex daquele que é seu maior medo para 2018, enquanto nunca deu explicações sobre a residência de luxo irregular da família Marinho em praia de Paraty-RJ. Tampouco esclareceu a contento as acusações de 615 milhões em sonegação de imposto, aquele mesmo tipo de crime contra o qual a Fiesp não infla um pato plagiado sequer para combater. Ao invés disso, a entidade dos industriais patrões facilmente catalisa a indignação da classe média alienada que demoniza os impostos, mesmo que, apenas a título de exemplo, um eventual retorno da CPMF para financiar a saúde pública correspondesse somente a cerca de 10% do montante sonegado pelos ricaços, ou seja, do dinheiro de impostos roubados do bolso público.
Diante disso tudo, talvez Platão estivesse mesmo certo quando escreveu, na obra Fedro, que “a temeridade é boa para poucos e ruim para muitos”. Com um processo de impeachment maculado por interesses mesquinhos do começo ao fim, pitbulls de gravata, nas poltronas do Congresso ou atrás das bancadas dos telejornais, rasgam nossa Constituição e debocham de grande parte dos eleitores e dos movimentos sociais. O descaramento e a “coragem” abusada da elite econômica deste país, amparada pela conivência ou pela combatividade dos analfabetos políticos que a ela se unem, sem saber que em prejuízo próprio, ainda hão de se defrontar com as consequências de tudo estarem tirando dos mais explorados, inclusive seu medo. Um dia. Até lá, vai ter luta.

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