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No escuro

vela_apagao_468 netAMANDA FACCA
Estudante de Jornalismo

 

 
Os carros não param, exceto quando interrompidos pela passeata que segue próxima gritando qualquer coisa mesclada de verde e amarelo. A cidade tem mesmo um barulho ensurdecedor durante o dia e as vezes a noite também, quando os pensamentos não deixam dormir e as horas se arrastam lentamente.
Com um passo de cada vez, percebe-se a caminhada que nunca foi tão longa quanto hoje. Sabe que não foi a distância que aumentou ou mesmo a idade que pesou. O cansaço está presente diariamente nos olhos vagantes e nos ombros baixos de qualquer um em todo lugar deste país.
Pequenas casas se amontoam enfileiradas nesta rua e na outra, enquanto castelos são levemente balançados em algum lugar de Brasília. Aqui, a dona de casa decide se põe mais água no feijão enquanto escuta os jornais a discutir o aumento da água, da energia e da cesta básica. Chama o marido e serve o jantar com as luzes apagadas.
Velas não são sinal de romantismo, são sinal de economia. Nenhum aparelho mais resiste por muito tempo nas tomadas, nem mesmo a televisão que antes ditava as últimas notícias ficou a salvo.
O marido conta que foram mais quinze funcionários demitidos só nesta semana e a mulher prepara o altar e mais uma vela, dessa vez pro santo. Que não dispensem o marido!
Conta ainda sobre o salário, que dessa vez recebeu parcelado, sorte ter recebido, ele faz questão de ressaltar. E a mulher coloca mais uma vela pro santo. Que não dispensem o marido!
O marido fica em silêncio e ouve-se apenas o tilintar dos pratos. Agora ela quer falar, ela precisa falar. Foi ao supermercado hoje. Percorreu as prateleiras numa busca incessante. Os funcionários trocavam as tabelas de preços mais rápido do que ela podia alcançar os produtos. Era como correr a maratona. Por fim, ao chegar no caixa, percebeu que o valor era o dobro do que tinha ainda na carteira e mandou pendurar a conta. O que comiam ainda nem estava pago.
O marido levanta e coloca mais uma vela pro santo, ao voltar tropeça na própria cadeira, está escuro demais. Tenta acender a luz. Nada acontece. Anda inquieto pela casa procurando as gavetas.
A última lâmpada. Sobe na cadeira, a mesma na qual tropeçou, troca a lâmpada. Desce e tenta novamente acender a luz. Nada acontece. Pega uma vela, acende e dessa vez fica com ela.

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