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Fé demais na política

383428437 NETANDRÉ FÁVERO
Professor e mestre em Filosofia pela USP

 

 
Nestes tempos de sobrevoo intenso dos abutres da imprensa golpista sobre nossas cabeças, percebe-se também que muita coisa não cheira bem quando se mete o nariz para xeretar certos aspectos das posições políticas de muita gente.
Em artigo sobre pesquisa divulgada no dia 05 de abril pelo jornal espanhol El País, elaborada e analisada por Esther Solano, Márcio Moretto e Pablo Ortellado, constatou-se que entre os manifestantes pró e anti-impeachment da presidenta, respectivamente nos atos dos dias 15/08/2015 e 18/03/2016, alguns “boatos flagrantemente inverídicos” eram objetos de crença de significativa parte dos manifestantes. Nos primeiros, as crenças de que “o PCC é braço armado do PT” (53,2%), “Dilma trouxe haitianos para votar nas eleições” (42,6%) e “Lulinha é sócio da Friboi” (71,3%). Nos segundos, “protestos articulados pelos EUA para roubar o pré-sal” (56,7%) – esta, a meu ver, mal formulada –, “Sérgio Moro filiado ao PSDB” (55,7%) e “protestos de junho (de 2013) orquestrados pela direita” (36,4%).
Diante disso, perguntei-me qual seria o problema, para muitos, de admitir que pouco se entende de política e de alegar precisar de algum tempo para formar uma ideia mais clara desses assuntos. Foi quando outro artigo me veio à memória, também do El País e por ocasião das manifestações de 13 de março deste ano. Intitulado “Na política, mesmo os crentes precisam ser ateus”, Eliane Brum, escritora refinada, problematiza as disposições psicológicas que conduzem muitos eleitores a uma atitude menos aproximada de um conhecimento acerca dos fatos da política e mais a uma atitude de crença, seja em algum partido, algum personagem do mundo político ou até num simples slogan, em si bastante vago, mas catalisador de sentimentos e ideais de nobreza moral que se busca colar à própria imagem. Proponho então me acompanharem na distinção importante entre crença e conhecimento.
Basicamente, chamamos de crença toda adesão a proposições que assumimos como verdadeiras – portanto não estritamente de conteúdo religioso –, quando aceitas sobretudo na base da confiança. Assim, na crença aderimos a algo como verdade, ainda que não consigamos explicá-lo racionalmente. Exceto em casos de genuíno autoconhecimento, em geral as disposições psicológicas que atuam nas adesões pela crença são pouco claras a nós mesmos e sinalizam uma necessidade de força para enfrentarmos certas angústias da vida. Essa força surge quando nossa crença confere um sentido que utilizamos para suprir carências diversas de nossa história, nossa inteligência, nossa frágil e finita condição humana. Talvez por isso tantos se apeguem tão apaixonadamente a suas crenças.
É assim também que a fé, termo da mesma raiz latina (fides) de fiel e fidelidade, habita o núcleo de toda crença: tem mais fé quem crê sem voltar atrás, sem dar mancadas nem vacilar em sua adesão; ter fé é sinal de compactuar na confiança. Assim, crer pressupõe confiar a ponto de uma adesão ser a mais completa possível, expressa numa cumplicidade “fidelizadora” – como gosta de dizer o mercado –, avessa a qualquer ruptura, sinal inaceitável de traição. A fé do crente implica sua adesão teórica a um comportamento, portanto o interpela em suas práticas e o tipifica no plano da ação moral. É quando acreditar e confiar/ser fiel se fundem quase que num mesmo conceito.
Mas nem toda crença pode ser identificada como conhecimento. Se concordarmos com Platão, autor de A República, apenas aquelas que forem verdadeiras e justificadas (racionalmente) serão conhecimento. Afinal, nem tudo em que se acredita é verdade, e quando é nem sempre é fácil de demonstrar. Diferentemente do crente, a atitude prudente da dúvida e da investigação inquieta é que são as marcas daquele que busca conhecer. Mas aquele que se orgulha e se basta com o proclamar-se crente e fiel age como se sua fé fosse maior e estivesse melhor demonstrada quando manifestada por uma certeza mantida mesmo apesar da ignorância: justamente por isso ele confia, pois se soubesse não precisaria acreditar. Para o crente fiel sem compromisso com a razão, ter fé é justamente dar esse passo no escuro (de conhecimento).
E quando os episódios da política são objetos dessa crença e não de conhecimento? Confortável aí e sem precisar vencer o crivo de uma justificativa rigorosamente racional, aquele que no sentido exposto adere às afirmações de uma coletividade, de um líder ou de palavra de ordem qualquer, sente-se bem assim, assumindo consequentemente uma posição a respeito de cada factoide político sem cuidado em conferi-lo, contextualizá-lo, relativizá-lo, dele suspeitar. Ao contrário, assume uma postura dogmática e se blinda contra qualquer questionamento que entenda ameaçar ruir o conjunto de sentidos que edificou para si, reforçado pelo senso de pertencimento à coletividade daqueles que adotaram a mesma dinâmica de descaso com o conhecimento, que vestem a mesma camisa (da CBF?), levantam a mesma bandeira, carregam os mesmos símbolos. Aliás, “simbolos”, pela etimologia grega da palavra, é justamente aquilo que une em representações e imagens comuns, ao passo que seu contrário, “diabolos”, passa ser figura daquele a quem não consigo jamais me unir, a quem muito do que sobra é o ódio, esse afeto tão perigoso para o exercício da cidadania!
O problema é que quando se trata de política, o conhecimento e o consenso pelo diálogo racional são fundamentais, sob o risco de nossos discursos, escolhas e ações, baseados numa fé cega e surda aos demais, resultarem em desastres para a vida de muitos. Por isso, penso que no tocante aos casos mais graves – como quando se brinca com as palavras, “fé demais não cheira bem” – sempre convém adotarmos questionamentos mais contundentes. Para que assumir um posicionamento de manada, sem conhecimento dos fatos nem conseguir articular dois argumentos a respeito do juízo que se emite, às vezes de modo até inflamado? Por desejo pueril de pertencimento? Para disfarçar a própria ignorância? Para posar de pessoa íntegra? Para enganar a consciência pesada de tanta indiferença social? Pior, só para defender mesquinhamente os próprios privilégios, sem jamais reconhecê-los ou confessá-los?
Politizar-se bem é algo muito importante, mas complexo, difícil e leva certo tempo de estudos, observações, experiências, debates, escutas, análises, autocríticas, desconstruções e reelaborações pessoais. E um problema grave ainda hoje é que quem já se esqueceu das aulas de História, quem nunca leu um clássico de Filosofia Política ou mesmo nunca abriu um livro didático de Sociologia para o Ensino Médio, nem nunca participou de uma reunião do grêmio escolar, do C.A. da faculdade ou de qualquer associação que lute por uma causa social julga que sabe o suficiente de política só porque assistiu no JN ou leu nos impressos dos Frias, Mesquitas, Marinhos e afins. Em papo reto, se nos alimentamos unicamente de informações sobre o instante político pelos veículos midiáticos patrocinados pela elite econômica nacional, saibamos que – ou, se preferirem, acreditemos – nossa tagarelice pode não estar exalando o melhor dos hálitos!

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