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Sobre perdoar e prometer

2016-desk-calendar-300x225 NETANDRÉ FÁVERO
Bacharel, licenciado e mestre em Filosofia pela USP

 

2016 parece ter começado com certa dificuldade em arriscarmos nossas típicas promessas para o ano novo, talvez por que 2015 tenha assustado a tantos de nós e deixado aquela sensação de receio e de que seja melhor não elevar muito as expectativas. Por isso, resolvi tratar, dessa vez, de dois assuntos decorrentes de nossa incapacidade de alterar aquilo que já aconteceu e nossa igual inabilidade de controlarmos o rumo todo do que está por vir. Para isso, recorro à grande filósofa judia Hannah Arendt (1906 – 1975), sobretudo em suas reflexões na obra A Condição Humana.
Como aprendemos com Santo Agostinho, melhor do que falarmos em “natureza humana”, preferimos a expressão “condição humana”. Esta preferência dá conta de carregar em si as características todas de nossas potencialidades e fragilidades, de nossas grandezas e misérias, todas histórica e culturalmente construídas e em dependência mútua com nossos semelhantes; ela ainda permite-nos evitar as infelizes tentativas de naturalizar em nós e nos demais aquilo tudo que é sempre apenas resultado da interação entre nossa fisiologia, o ambiente e a cultura, fatores que nos constituem sempre de modo relativo ao lugar e à época em que vivemos.
Pois bem, Hannah Arendt aponta, dentre outras, duas características de nossa condição humana: a irreversibilidade de nossas ações e a imprevisibilidade acerca dos acontecimentos todos que decorrem delas. Não é assim? Afinal, quem nunca teve algo do qual já se arrependeu ou quem sempre manteve o pleno controle de tudo o que planejou? Quem já viu, do futuro, os estragos irreversíveis que deixamos no passado e quem sabe, no presente, da falta de garantias absolutas acerca de nossos planos para depois é capaz de filosofar em sintonia conosco.
Do passado, o irreversível domina o presente. O que está feito está feito. E se o que está feito é motivo de arrependimentos agora, então é sinal de que de alguma forma ainda continuamos aprisionados àquilo que saiu dos trilhos, aos nossos erros e escolhas infelizes, mesmo quando bem-intencionadas. Ali, somos torturados pelos efeitos ruins de nossa ação sobre os outros e/ou sobre nós mesmos. Diz a filósofa: “diferentemente dos processos produtivos que podem ser desfeitos, tudo que depende da iniciativa do agir humano é irrevogável. Nenhum gesto ou palavra de qualquer agente pode alterar o que passou”. Como então voltar atrás, como desfazer? Simplesmente não dá para mudar, jamais dará. Resta-nos apenas aprender com o que é motivo de lamentação e não o repetirmos mais de hoje em diante. Opa, eu falei “apenas”? Que exagero!
Do presente, o futuro é o reino do incerto e do imprevisível. Mesmo que sejamos meticulosos planejadores. É que nem tudo depende de nós, e mesmo no que depende nem sempre estamos preparados para lidar a contento. A insegurança acerca do amanhã pode nos roubar a tranquilidade e colocar no lugar a angústia e o medo. Sendo parte da nossa condição humana, a rigor nada consegue afastar de nós o fato, tão certeiro quanto a morte, de que desconhecemos o próximo momento. Assegura Arendt: “a ação, por ser imprevisível, nunca é totalmente segura”. Como então dominar o que está à frente, como determiná-lo? Simplesmente não dá para estabelecer, jamais dará. Resta-nos apenas tentarmos nos preparar a partir do que desejamos para amanhã. Opa, eu falei novamente “apenas”? Na verdade, não é bem assim.
Se a irreversibilidade e a imprevisibilidade são fatos incontestáveis de nossa frágil condição humana, não quer dizer porém que não tenhamos aprendido a contornar seus incômodos, amenizar suas angústias e, assim, recobrar forças para viver o presente. Segundo a filósofa, o que melhor dispomos para lidar com essas marcas da existência é o perdão compartilhado e promessa, feita e cumprida.
Conforme a pensadora, que reconhece em Jesus Cristo o grande precursor e referência do perdão na história humana, perdoar não apaga a memória e o passado, mas nos liberta para viver o presente. Frente às ofensas sofridas, ele é o avesso da vingança, a qual nos mantém acorrentados aos infortúnios vividos, por mais que nos ilude do contrário. O perdão é ainda uma alternativa à punição, jamais seu oposto, e possível mediante a presença do respeito, e abundando por ocasião do amor. Nos Evangelhos, à prostituta que muito amou, muito se perdoou. Quem pouco ama, porém, priva-se das condições para a libertação, de si e do outro, conferidas pelo poder do perdão, dado e recebido. Escreve a filósofa que “o único recurso disponível para enfrentar a irreversibilidade da ação é o perdão. Perdoar não significa anular o efeito de uma palavra proferida ou de um gesto já realizado, mas é a manifestação do poder de iniciar um novo processo”.
Segundo ela, também “o único meio de que dispomos para lidar com o caráter imprevisível da ação é o poder de prometer. A promessa apresenta-se como um recurso para contrabalançar essa imprevi-sibilidade, pois partilha com o agir a mesma natureza – ela depende apenas da iniciativa dos homens”. Mediante o compromisso da promessa feita, somam-se as forças para realizá-la, o foco, a firmeza de espírito para enfrentar as adversidades que certamente surgem. Pela promessa cumprida, efetiva-se algum poder do nosso agir, e então recobramos forças pra seguir em frente. Afinal, é também como escreveu o filósofo grego Epicuro: “o futuro não é nem totalmente nosso, nem totalmente não-nosso”.
Assim sendo, que no irreversível e no imprevisível de 2016, não acumulemos o imperdoável e as promessas esvaziadas de 2015! Um ano bastante reflexivo a todos!

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