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No labirinto da liberdade, ocupar e resistir

andre favero NETANDRÉ FÁVERO
Bacharel, licenciado e mestre em Filosofia pela USP

 

Com o final do ano letivo nas escolas cuja rotina não foi alterada pela atitude genuinamente cidadã e republicana de alguma ocupação, estudantes e pais, não raro, divergem quanto às oportunidades que surgem com as férias escolares: enquanto os filhos tendem a querer aproveitá-las com o máximo de liberdade, muitos pais receiam os perigos daí decorrentes. Então surgem perguntas: como se pode aproveitá-las bem? Correndo riscos? Evitando-os? Atrevendo-se ou se contendo? Até que ponto? Enfim, qual linha tênue demarca as fronteiras entre a segurança, o cuidado, a aventura e a liberdade?
O mito grego de Dédalo e Ícaro já acusava o conflito entre a prudência responsável dos pais e a ousadia desmesurada dos filhos: desobedecendo o conselho de Dédalo, seu filho Ícaro levanta voo alto demais e acaba sofrendo uma queda fatal. É que o sol quente derretera a cera que sustentava as penas das asas artificiais que seu pai havia construído. Tragicamente, a finalidade dessa engenhoca era permitir que ambos escapassem de outro perigo mortal, o terrível Minotauro, também preso no mesmo labirinto sem saída onde eles dois estavam perdidos, ironicamente edificado pelo próprio Dédalo.
Voltemos então ao labirinto das férias, é quando muitos pais e filhos ficam perdidos. Ora, o medo mais legítimo dos pais deveria ser o que entende a tragédia que pode se tornar o futuro do filho que não aprende aos poucos e reiteradamente a trabalhosa tarefa de se assumir como sujeito da própria vida. E evitar esse desastre implica em amparar dando espaço, incentivo e deixando que primeiramente ele lide com as inevitáveis dificuldades e as eventuais frustrações.
Nesse sentido, é preciso propiciar, na medida certa a cada tempo, a efetiva liberdade aos filhos, aquela liberdade verdadeira cujas angústias pelos riscos, escolhas próprias e responsabilidades intransferíveis são as experiências-mestras da formação da autoconfiança, do protagonismo, da boa autoestima e da maturidade para a convivência na vida adulta. Um dia eles também poderão se tornar novos pais e educadores, e para isso é preciso voar batendo as próprias asas.
É querendo preparar os jovens para os voos da vida que pais, professores e educadores conscientes, em geral, entendem que devem educá-los para a autonomia, e às vezes até à revelia dos próprios filhos ou alunos. É que muitos deles ainda não conseguem enxergar o alto preço a se pagar no futuro pela imediata comodidade e prazer que, respectivamente, a superproteção e a falta de imposição de limites por parte de seus provisórios tutores lhes fornecem no momento. Mas as vivências do “não”, dos limites, das frustrações, das perdas, da saudade e de tantas outras “negatividades” são partes estruturantes da compreensão do fenômeno da liberdade, do drama da existência e da experiência possível de um modo de uma vida mais autêntico e mais engajado nas lutas pelas transformações necessárias no mundo.
Além de uma verdadeira revolução atitudinal contra esses discursos e práticas familiares inquestionados e tão comuns hoje, é fundamental também uma certa resistência crítica contra as burocracias paternalistas e assistencialistas de muitas instituições pagas de ensino, que se rebaixam a um clientelismo de mentalidade ta-canha.
É fundamental, na verdade, uma atitude crítica ante toda a estrutura neoliberal que determina os sistemas (des)educa-cionais a condicionarem as crianças a uma obediência cega aos mais velhos, à competitividade entre os colegas e à indiferença com os desconhecidos. Afinal, trata-se da mesma estrutura que gerará os desprotegidos do futuro, ou seja, aqueles que, frustrados com uma vida desumanizada, buscarão compensação na frivolidade do consumo, na apatia política ou na estabilidade de apaziguados e resignados modos de vida coniventes com as velhas opressões existentes na sociedade: classistas, machistas, racistas etc.
Pois basta nada fazer para tudo continuar reproduzindo, e essa é pior forma de estar perdido. Não há liberdade na inação e não dá para tirar férias da própria vida. A vida, como as escolas ameaçadas de arbitrariedades e de fechamento em SP, requer ocupação e resistência vigilantes, pois é espaço de construção de si, em constante relação com os outros e com o mundo, num jogo de forças incessante. Em um jogo há regras e há a vez de cada um. Há oportunidades para se perder, mas também para se encontrar, oportunidades para voar, ponderar, escolher, recomeçar, enfrentar. O tabuleiro de 2016 já vai se abrir. Aprenda observando, tenha tática, mexa suas peças, ocupe-o e resista, bom jogo!

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