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A escola que não gostava dos maus alunos (Parte 2 de 3)

NETANDRÉ FÁVERO
Bacharel, licenciado e mestre em Filosofia pela USP

 

Infelizmente ainda hoje podemos ilustrar com a caricatura e ironia do conto da parte 1 tantas escolas incapazes de educar de maneira adequada muitos de seus estudantes, renegados e estigmatizados pelos professores como “maus alunos” e simbolicamente apartados dos supostamente bons. Trata-se daquelas que o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) chamava, ao lado das fábricas, hospitais, prisões etc. de “instituições de sequestro”. Elas funcionam pela introjeção passiva e irrefletida das normas, docilizando os indivíduos na medida que os adestram em como dispor seus corpos e no seu uso do tempo, de acordo com o regime da disciplina e do confinamento praticado em seus ambientes de constante vigilância. Essas instituições de sequestro, acusava Foucault, acabam por moldar os sujeitos nelas inseridos de modo a adaptá-los ao sistema produtivo capitalista, às formas exploradoras de trabalho, aos hábitos de consumo compulsórios e à padronização dos modos de vida.
Escolas assim, em geral, também não impõem resistência aos mandamentos neoliberais para a educação, ao contrário, cumprem-nos e os incentivam como valores que as regulam: após a precarização dos salários, a competitividade sufoca o espírito colaborativo entre seus profissionais e entre seus estudantes; a autoridade do líder implica em centralização e abuso de poder; os princípios da eficiência e do controle ofuscam a dignidade do humano, pois seus fins custam meios que desgastam as relações interpessoais; o conhecimento, assumido como propriedade privada capaz de alçar aos degraus hierárquicos mais altos, corrompe a construção coletiva do saber, desqualificando e banindo absurdamente a dúvida, o erro e a alteridade inerentes a qualquer processo de aprendizagem. Alguns exemplos disso, em escolas públicas ou particulares, são, respectivamente, a remuneração vergonhosa aos professores, suas categorizações, as práticas de ranqueamento dos estudantes, o autoritarismo docente, a burocracia dificultosa imposta pelas direções e coordenações pedagógicas, a adoção de sistemas apostilados de ensino, a carga excessiva de simulados aplicados e por aí vai.
Nessas escolas não há vez para os estudantes que não se enquadram e que insistem em “pensar fora da caixinha”. Nelas as artes são desvalorizadas e também não se pode filosofar de verdade ou, como diria Gilles Deleuze (1925-1995), criar conceitos; lá não há vez para a inventividade criativa e para os que não aceitam ou não conseguem se expressar na forma única da linguagem escrita mais sisuda e empolada; nem lugar para o questionador de velhos assuntos-tabus a fim de debatê-los; não há vez para o que não consegue nem se permite ser cobrado apenas na capacidade de memorização, no decoreba do arcaico paradigma conteudista da falsa intelectualidade. Em escolas assim, esses estudantes, que não agradam e se revoltam por não serem acolhidos em sua subjetividade “desviante”, são covardemente rotulados como maus alunos e suas notas, medidas com réguas obsoletas, sequer atingem a mediocridade da média nos boletins – aliás, registros esses igualmente arcaicos. No caso da prática de alguns professores, é quando sua intolerância às adaptações ao novo e ao diferente se traveste de rigor e seriedade, chegando às vezes até a perseguir colegas menos jurássicos.
É que essas escolas ainda permanecem presas ao modelo implementado pelas demandas da sociedade industrial europeia de duzentos anos atrás e, por isso, são meras reprodutoras em série de uma massa de alunos incapazes de crítica e que serão apenas mão-de-obra barata para a execução de tarefas que não ameacem o “status quo”. Elas são terreno hostil àquele “ousar saber” que o filósofo Imma-
nuel Kant, em 1784, postulara como fundamental para a saída da menoridade intelectual, rumo à emancipação e à autonomia responsável do pensar e do agir. E se é verdade que a escola que ele idealizou para sua época já ficou datada para a nossa, cabe-nos agora questionarmo-nos também sobre que princípios queremos refundar a escola para o século XXI. E mais, queremos mesmo? Que educadores de fato entendem a necessidade disso e o querem?

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