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A escola que não gostava dos maus alunos (Parte 1)

Cena do filme francês Entre os Muros da Escola (“Entre les Murs”),  a respeito da crise e esgotamento do modelo educacional
Cena do filme francês Entre os Muros da Escola (“Entre les Murs”), a respeito da crise e esgotamento do modelo educacional

ANDRÉ FÁVERO
Bacharel, licenciado e mestre em Filosofia pela USP

 

Era uma vez – era só uma vez, porque quase não existe – uma escola que não gostava dos maus alunos. É que eles davam muito trabalho aos professores, em geral se sentavam no fundo da sala e só se desgrudavam do celular para conversar. Às vezes também se distraíam rabiscando a carteira, em geral esboçando sacanagens naqueles tampos tão convidativos.
A sala dos professores era um verdadeiro confessionário de impressões, análises e soluções geniais, não sei o que vêm fazer na escola, educação vem do berço, essa menina é inteligente como uma porta, esse moleque é muito prepotente, a burrice deve ser de família, deixa que na prova eu pego eles, isso não vale o meu salário. Ali era só ficha limpa, todo mundo estava justificado.
Essa escola era boa pra caramba, muros altos pra ninguém fugir, o sinal nunca atrasava, a diretora sabia manter a pose de durona com o corpo docente e principalmente com os alunos, os professores apitavam bem, ora apelavam à piedade deles ora lhes mostravam os dentes, afinal também têm que saber impor respeito. Os inspetores estavam sempre a postos, sabiam enquadrar os baderneiros e nada escapava de sua vigilância. As faltas eram rigorosamente registradas. Também na reunião de pais a coisa era exemplar, nenhum professor perdia para um pai ou uma mãe que tentasse – que afronta – defender seu filhote, às vezes até saíam com o sabor da vitória, certos de que ao chegar em casa o pai faria com aquele capeta dos infernos o que o professor infelizmente não podia fazer. Bom mesmo seria poder voltar algumas décadas quando professor nenhum levava desaforo pra casa.
Os maus alunos, no fundo no fundo sabiam que a culpa era só deles. Eram burros porque desprivilegiados pela natureza ou porque mereciam mesmo, já que não se esforçavam como os bons alunos. Esses sim, os bons alunos é que salvavam a escola, eles e os bons professores, todos amantes da disciplina, bons alunos e bons professores que mantinham entre si um relacionamento correto e desinteressado, eram invejosa e reciprocamente elogiados, gente importante ou com o futuro garantido.
Olhando meio de longe aquela escola parecia até um pouco esquizofrênica. Na verdade, era bem nítido, havia de um lado os esforçados, os naturalmente brilhantes, boletim lindão, e de outro os desinteressados, fracos, malcriados, bando de mal caráter, os culpados, nem vale falar do boletim deles. Era assim, uns bons outros ruins, uns talentosos outros imprestáveis, tinha os inteligentes e tinha os burros, as palavras certas são essas mesmo.
À noite, quando fechavam a escola, era como se desse para sentir, nos corredores vazios e gelados, uma energia carregada de um misto de constrangimentos e disfarces, de insolências e ressentimentos, de medo e indignação, de vontades sufocadas e sorrisos inseguros, às vezes ainda um cheiro de segredo desesperado em meio ao de uma esperteza ou desconfiança que não se podia assumir. É, de fato, quando o breu da noite tomava aqueles corredores e aquelas celas e aquelas grades era como se uma multidão de sentimentos que ali aconteciam a cada dia tivesse deixado um rastro suspeitoso. Bem, mas a partir das sete isso tudo seria varrido com os primeiros ruídos de gente chegando e se acomodando cada um em seu lugar, o lugar de sempre, cada um na sua função, no seu papel, na sua autoridade, no seu futuro brilhante, no seu caso perdido. Deu o sinal, entreguem os trabalhos e ajeitem essas carteiras porque aqui não é a casa de vocês, não quero um pio nessa prova, me dá a merda desse celular já!
Lá fora, depois daqueles muros altos e sem graça, por trás de onde o sol já aparecia, tudo corria normal, tudo na mais santa paz, sempre. E um dia os alunos também atravessariam de vez o portão daqueles paredões, pra nunca mais voltarem toda manhã. Afinal, do lado de lá, eles sa-biam, eles viam isso em casa, todo mundo fazia apenas o que queria da vida, ao menos era como entendiam. Ali fora, se for ver bem, não era muito diferente da escola, meio que tudo funcionando igual, talvez melhor, sem muro nem bedel nem grades nem confinamento nem diretora nem divisões e nem conflitos graves, pelo menos era assim que também os ex-alunos percebiam e lhes ensinavam. Tudo normal e melhor. Tudo na mais perfeita paz. Eta mundo que gira e não muda! Pensando bem, aquela era mesmo uma escola que, sem complexidade, preparava todos os seus alunos para as mais variadas situações da vida.
Só que não.

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