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A política e a difícil arte de escutar para dialogar

pagina_opiniao netANDRÉ FÁVERO

Bacharel, licenciado e mestre em Filosofia pela USP

 

Quando se trata de política no Brasil atual, uma lamentável atitude parece estar ganhando força com a direita que começou a dar as caras: um desavergonhado desprezo pelas ciências humanas, por seus estudantes e seus profissionais. Exemplo disso é que essa direita, batedora de panelas nos  bairros ricos das grandes cidades, sequer deu um pio em defesa dos professores que recentemente sofreram a truculência do governo Beto Richa, no Paraná.
Para além dos conflitos de classe, por interesses obviamente políticos e econômicos, o comportamento ora indiferente ora raivoso e desinibido desse segmento da sociedade extrapola, no âmbito individual, a limitação cognitiva desses desprezadores das ciên-cias humanas e alcança o terreno pessoal de suas emoções e de seus vícios, ou seja, torna-se também problema de sua afetividade e de sua ética.
Explico. Não compreendendo conceitos fundamentais de ciência política, jurídica, econômica, sociológica, educacional etc., e tampouco sendo essa ignorância admitida, em qualquer discussão sobre política essa limitação se traduz facilmente em ódio e ressentimento, e consequentemente em indisposição, fechamento à escuta, prepotência, agressão verbal ou até física. Assim, penso eu, não é de se estranhar também que a esses indivíduos predominantemente falte poesia, arte de bom gosto, hábitos menos estereotipados e relações menos interesseiras.
Como superar isso? Na panaceia, o básico seria conhecimento e #maisamorporfavor . Contudo, esses dois ingredientes requerem justamente a prévia abertura de que essas pessoas carecem. E então a pergunta volta: afinal, o que fazer para vencer essa estreiteza de espírito e essa mesquinhez de coração?
Bem, arrisco dizer que a essa altura somente o acaso de inesperados encontros seja capaz de romper essa barreira afetivo-cognitiva, encontros com a dor que se carrega e aguça com o tempo ou com experiências profundas do sofrimento alheio. Ou, com mais sorte, deparar-se ou vir a conviver com seres humanos cada vez mais raros e pacientes, de mente esclarecida e coração generoso. Ainda assim, uma heroica e hábil prática de ironia e maiêutica socráticas talvez fossem necessárias no trato com os que ultimamente andam destilando discursos de ódio tanto em conversas triviais quanto nas redes sociais. Aliás, diante do ridículo praticado por esses no facebook, sempre me pergunto como faziam para provocar tanta vergonha alheia antes da era da internet…
Todavia o caldo do desentendimento cotidiano entre a parcela mais ignorante da direita e aquela parcela letrada da esquerda entorna ainda mais. Muitos desses últimos não são dados a pacifismos ou a práticas ascéticas de controle de seus temperamentos. Ao contrário, são belicosos e prontos a disparar palavras cortantes, facilmente traídos pela rapidez de articulação verbal que adquirem e pelo hábito com que disso tentam se eximir apenas por trazerem alguns nobres sentimentos sociais menos latentes, talvez.
Portanto, a pena da ambidestra história de nossas mazelas e conquistas enquanto tupiniquins e animais políticos ora rasga seu papel com rispidez ora o encharca e borra. Noutras palavras, esquerda e direita, no Brasil atual, quando enfim se põem em conversa têm faltado na racionalidade e exagerado nas emoções; falhado no uso das palavras e caprichado na surdez mútua.
É que por um lado o altruísmo pedagógico, ou seja, o cuidado em aprender e ensinar, infelizmente ainda não se adquire direito nas carteiras das escolas ou universidades. E por outro lado ninguém se politiza de supetão. Gostar de esperar não é o forte dos “canhotos” – que minoria uma hora não se cansa? -, tampouco os “destros” entendem facilmente as teorias que versam sobre a condição humana e sua história gregária, ou os complexos processos de aprendizagem ou os conceitos de dignidade, direitos humanos, ideologia, alienação, poder etc. Essas coisas aí só se entendem após longo tempo de leitura reflexiva de bons textos e de um exame crítico e sincero dos impulsos internos de cada um e dos discursos e práticas que permeiam o tabuleiro da vida em sociedade.
Mover-se nesse jogo, com alguma lucidez e espírito coletivo, exige e-xercício atrás de exercício. E mesmo assim, ao final, não se pode afirmar nenhuma garantia de posse de derradeiras e inabaláveis verdades, apenas maiores chances de entendimento e aprendizados. Mas ao menos certezas compartilhadas, mesmo quando órfãs da verda-de, podem brotar do cultivo de uma Educação de qualidade que deixa cair uma semente de boa ideia aqui outra lá, às vezes logo quando a terra dura das mentes e corações fora remexida. Cultivos tais, se renovados constantemente por pais e professores, quem sabe nos arranquem lentamente de nossa atual imaturidade democrática e quase generalizada incapacidade de diálogo.

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